sábado, 7 de outubro de 2017

desabafo...

Qual é o sincero sentido de nos matarmos uns aos outros?
Sinto dificuldades diante das guerras.
Elas são apenas o empenho dos que já não lembram mais suas raízes e sementes... 
ensurdecidos que estão para a luz.
E não falo apenas das guerras que passam todos os dias nos noticiários, mas das que carregamos no peito sem nem perceber, tão esquecidos que estamos de nós.
Quantos Herodes ainda hão de nascer, meu deus, nos solos da Terra?
Por quanto tempo ainda ficaremos assim: tolos e nulos?
A velharia da mesmice me cansa.
Julgamos com o discurso afiado o que não nos cabe julgar.
Oprimimos de forma primorosa todo o horizonte que nos cerca.
E no final desejamos ser feliz.
Acaso enlouquecemos?
Crianças morreram.
Crianças morrem todos os dias (nos apontam as estatísticas).
Não.
Isso é mentira.
Eu me recuso a acreditar em abutres.
Sou eu quem morre todos os dias.
Todos os dias cada um de nós está morrendo.
Seja na pele de crianças queimadas ou simplesmente ignoradas.
E enquanto não despertarmos atrocidades maiores podem acontecer.
É realmente isso o que queremos?
Me recuso a acreditar que a morte seja isso.
Me recuso a acreditar que só assim conseguimos viver.


No horizonte iluminado do meu coração todas as infâncias crescem em paz.

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

destino

Com  meus pés, salgo mares...
Levo comigo apenas as folhas de passagem e caminho, saboreando o tempo. 
Mergulho em sangue nas formas de deus... 
Ele me disse certa vez que precisava de minha companhia.

Sempre que chego, me sento no chão e começo a dizer que o amo e o odeio sempre, todos os dias, e que a maior parte dos homens são tolos por temê-lo ou adorá-lo.
Por não fazer nem uma coisa nem outra, vou ao seu encontro sem problemas. 
Amor e difamação dançam juntos em minhas canções, 
e ele, que só sabe me olhar, às vezes, esboça um sorriso canto de boca.

Salivo seu corpo. 
Sente cócegas. 
Sinto gosto de lágrimas na pele dele e cuspo,
tenho nojo da luz em alguns momentos. 
Sentado ao pé de mim, recolhe-me em seu jardim, como nuvem desgarrada da plantação. 
Mostra-me o que há e todo o meu corpo arde...

Sonho todas as noites copular com deus,andarilhar seus olhos e retornar. 
De meu ventre, apenas árvores e pássaros juntos nos verdes do mistério. 
Paro ventos e sou a grande mãe do nada:

Eu copulo com deus todas as noites.

Todas as noites salgamos mares.

domingo, 3 de setembro de 2017

8

Olho pro mundo e me dá preguiça de tudo
o que não sabe morrer:
guerra
fome
indiferença -
corpo de um mesmo ser:
exato
parado
disforme.

Como é demorado o parto.
O parto real...
Aquele que compassa com as formigas,
se inspira nas preguiças,
mantém contrações de lesmas e
caminha como tartaruga no deserto.

De tudo o que sei é sabido não saber quase nada.

Aff...
Que eu desejo o nada
Os longes dos horizontes sempre andantes
O inesperado.

Como é cansativo andar entre as pessoas sem poder confiar
nelas e em mim.
Andamos com a sensação de que a qualquer momento podemos
matar ou morrer.
Seja por tudo ou por nada.
E isso é tão antigo...
Tão mais do mesmo...
Comida estragada que nos faz mal.
Nos embota a beleza viva da vida.

Deixemos nossos olhos descansar um pouco.
É tempo de evocar a pele
do corpo
da alma
da vida
e deixar que ela - companheira tão profunda e infinita - nos conduza ao humano em nós.

sábado, 29 de abril de 2017

E o palhaço o que é? Plantador de bonitezas no coração da vida, ué?!

Para os mais íntimos... Palhaça Marcha Lenta!

 Tudo começou quando, lá na infância, durante muitas aulas de matemática, as borboletas vinham me visitar pela janela da sala de aula. Eu estudava numa escola que ficava de frente pra Baía de Guanabara e tinha muitas árvores em seu terreno. Era tão bom ir para lá... E o que mais me encantava? Conversar com as borboletas! Foram anos de recuperação em matemática por causa disso, mas nunca me arrependi... Elas tinham tantas coisas para me contar em seu silêncio que eu praticamente nem ouvia a voz da professora. Quando chegava em casa a alegria era tanta que minha mãe, ao invés de me pôr de castigo ou ralhar comigo por conta de tantas insignificâncias, me regava ainda mais com livros e histórias. Meu pai, que sempre foi muito engraçado, ao ouvir o que eu tinha aprendido com as borboletas na escola, dizia me acarinhando: “Mas é uma pateta mesmo! A pateta mais pateta do papai!”. Eu não entendia muito aquele apelido, mas sempre senti tanto amor vindo de meu pai que nem me incomodava.
Até que um dia na escola, durante uma aula de Educação Física, anos mais tarde, a professora, sem saber o que faria com a turma, simplesmente deu a bola e intimou que todos jogassem futebol. Foi uma loucura, pois sempre em toda turma tem aqueles seres monstruosos querendo vencer e impor sua força e brutalidade aos outros... E eu sempre fui baixinha... Pra piorar a situação me colocaram no gol. Minha cabeça me dizia que aquilo era para me sacanear, mas meu coração estava tranqüilo e disposto a não fazer nada. Minha sorte é que eu sempre tive bons amigos e, durante a partida, alguns dos meninos ficaram no gol comigo... uma bagunça! No que a bola vinha na minha direção, eu corria em direção oposta. Se alguma brutamontes ameaçasse me pegar ou chutar a bola para me machucar, eu me escondia atrás dos meninos, que sempre me protegiam. Nessas horas, elas gritavam com muita raiva e em coro: “Mas é uma songamonga mesmo!”. Aquilo me feria um pouco, mas eu sempre tinha em mente as palavras sábias de minha avó: “Filha, lembre-se sempre que seu nome é você e nem todos sabem disso, por isso dizem ofensas que no fundo revelam a elas mesmas!”.
Os anos foram passando e, curiosamente, eu fui convocada pela vida a ser professora. No magistério descobrir que não aguento ser apenas um ser que marca freqüências, reprova alunos, impede as crianças de brincar, tem que ser sempre sisudo para ser levado a sério... Aff!!! Percebi que também precisava ser outras, tal qual o mestre... Precisava continuar minha conversa com as borboletas. Foi aí que nasceram em mim a poesia e o teatro, artes que me reconduziram às minhas amadas palavras aladas da infância. Em estado verbal de poesia e teatro comecei a me dar conta da riqueza daqueles momentos descritos acima. Quantos elementos! Quantas cores! Quantas outras de mim já estavam ali, latentes, esperando o momento certo para desabrochar.
No desejo de sentir meu cheiro, me afastei do mar e rumei para a serra, lugar onde algo de muito mágico aconteceu: conheci seres tão patetas quanto eu. Pessoas encantadas e dispostas ao desencontro de ser, com as quais pude continuar o desafio de raspar as tintas com que haviam me pintado os sentidos. Comecei a sentir a necessidade de revisitar minha história, minhas dores e conflitos, principalmente, e transformá-los em potência criativa, contrariando todos os códigos psicossociais que nos dizem todos os dias que são justamente essas coisas que nos adoecem. Quanta bobagem! Pois foi na beleza encontrada na dor que minha patetice de infância começou a tomar contornos de borboleta. Como são potentes as perdas de quem amamos, as distâncias que não desejamos, os fracassos que não esperamos, as decepções que quase nos aborta o caminho. Foi então que descobri: meu cheiro sempre teve aroma de palhaço!
Ser palhaço... Quando pequena olhava para aquele nariz vermelho e me perguntava: “Como consegue sorrir se seu nariz está sangrando?!”. Hoje procuro reencontrar essa intuição de infância, que já me dizia o que era verdadeiramente sorrir. Hoje meu sorrir resguarda e revela o que sou de mais íntimo com as borboletas: Marcha Lenta, luz interna vista por meu pai após uma longa conversa:
- Pai, você é o maior palhaço da minha vida. Você foi a minha maior dor! Não é maravilhoso!
- É, filha, você realmente é diferente... nunca regulou muito bem... tem a quem puxar! – apontando para si mesmo.
- Mas, pai, sou uma palhaça sem nome... ainda não consigo ouvir...
- Hahaha... natural! Você sempre foi devagar... lerda mesmo, sabe?! Minha eterna Pateta! Olha aí: Pateta!
- Não! Pateta já existe... Sei lá! É outra palavra que pulsa em mim... Mas não consigo ouvir!
Foi quando meu pai, com seu sonho de astronauta, me levou para ver as estrelas. Ficamos em silêncio durante tanto tempo que quase me esqueci do que havíamos falado antes. Ele me olhou profundamente e, como de costume, contou uma piada enigmática. Para mim, sempre, todas as piadas são enigmáticas. Quase nunca as entendo e, quando entendo e começo a rir, ninguém sabe mais o motivo de minha risada.
- Hahahaha... Eu sabia! Escute, filha,- colocando as mãos em meu coração – ele pulsa: Marcha Lenta!
De agora só posso dizer que já não consigo mais não ser o que sou... E eu sou, entre tantas outras coisas, Marcha Lenta: palhaça-poeta nascida para plantar a demora nos olhos das gentes. Como sou grata aos coros violentos da infância! Às sábias e generosas dores... O que seriam dos palhaços e dos poetas sem elas?
No alto das montanhas, cheias de árvores e rios, as borboletas são por toda a parte. 

A infância, eu sendo Marcha Lenta e minha mais luminosa borboleta, 
minha irmã e companheira, Lua Cheia.
                 

sábado, 25 de março de 2017

Crescer não é fazer aniversário

Muitas pessoas apenas fazem aniversário, mas não crescem. Talvez isso justifique o mundo no qual insistimos em repetir. Talvez isso também justifique o fato de muitos jovens não desejarem ou saberem crescer. Olham em volta e os ditos adultos não os espelham em sua sinceridade e ousadia. Estão, a maioria, sem referências, pois ao invés de adultos reais vêem a aberração de uma infância transformada em infantilidade. Os infantilóides não são os jovens que recusam seus adultos, mas os adultos que insistem em não crescer.

Olho para as árvores... – mangueiras! Guardo dentro da alma uma mangueira sagrada... sonho ser como ela... enfim... – e não me lembro de vê-las frutificar no instante prepotente de suas vontades. Não! Elas frutificam quando é chegado o tempo. Não apenas o seu tempo, mas o tempo da vida, o tempo da semente, o tempo do próprio tempo. Frutificam e se multiplicam em milhares de possibilidades sem se boicotar no caminho. Abrigam pássaros durante longas temporadas... e não consta que cobrem alugueis por isso, deixando-os ir sem lhes cobrar presença ou retribuição por tudo o que lhes foi dado. Mangueiras crescem de verdade, Senhores! E nós?

Fico pensando o quão pequena é ainda nossa alma, isto é, nosso olhar para o mundo, pois, vejam bem o que fizemos com o amor, o abrigo, a liberdade... Nos deixamos envenenar por palavras absolutamente falecidas das bocas que as pronunciaram e não percebemos que, ao repeti-las, ajudamos na manutenção desse mundo que já não suportamos mais. Que loucura é essa, Senhores? Ou seria excesso de racionalidade?

O fato é que desde que me dei conta disso passei a me desejar tal qual uma mangueira. Não que eu deseje ser ela, não é isso... mas desejo incorporá-la de tal modo a me permitir crescer e frutificar plenamente. As crianças estão percebendo isso e, de algum modo, demonstram prazer em brincar com meus galhos e descansar a minha sombra. Conto para elas que não existem plantas, animais, minerais, seres humanos ou qualquer outra categoria que nos possa segregar. Conto-lhes que só existe a alegria de sermos seres com todos os outros seres dentro do grande ser que é a vida. E não me venham com oposições de ordem filosófica, hein?! Escrevo o que vejo, oiço, gesto, sinto com o corpo inteiro, como bem ensinou meu mestre. Seres sim que por necessidade divina comungam o corpo da luz, para que ela própria irradiada possa se consumar.

Sim. Os seres são uma necessidade sagrada... assim como a palavra para o poeta, a luz para o pintor, o silêncio para o músico, a vida para o ator... Exercer a vida sendo com toda a realidade é ser genuinamente o encontro do sagrado com ele próprio. Por isso, em minha loucura de poeta, converso com mangueiras, gatos e crianças. Procuro escutá-los com a alma desperta de tal modo a tatuar na pele dos olhos seus mistérios. Todos me narram as verdadeiras cores do sol e, com eles, vejo o sol sempre com cores diferentes. Foi embebida nessa loucura de ser o que sou que passei a olhar com olhos de ver a magia de simplesmente crescer...

...

Havia chovido e ventado muito na noite anterior, mas mesmo assim decidiram ir. Ele estava apreensivo por conta da forte chuva que haviam pegado no caminho, mas, ao mesmo tempo, animado pois seria o primeiro momento completamente sozinho com sua grande paixão.

Depois de caminharem um longo caminho a pé, chegaram ao portão do lugar mais sagrado para ela. Imaginem o lugar onde suas almas foram forjadas em cores, aromas, voz, gestos... pois é... eles estavam diante da alma dela, e ele nem desconfiava.

Entraram.

A quantidade de galhos espalhados pelo chão era assustador e várias das mangueiras presentes no lugar estavam completamente descabeladas e aparentemente machucadas. O coração dela apertou. Sempre aprendeu a amar o vento. Sentia que mais cedo ou mais tarde se deixaria levar por ele. Mas aquele vento... por que fez isso dentro da minha alma?, se perguntava ela.

Foi então, depois de longos arrepios, que se lembrou de sua amiga, mangueira plantada na infância por ela, sua mãe e avó. Correu para vê-la. Chorou. Atingida por um raio, sua amiga estava com o corpo cindido ao meio. As raízes negras. A terra ao redor chorosa... Ajoelhou. Pediu-lhe perdão por não estar ali na hora do acontecido... por não protegê-la como havia prometido na infância. Foi para casa com a sensação de que também ela havia morrido. Aquela imagem nunca mais saiu de seu coração. Ainda naquele dia, recolheu o corpo de sua amiga e o colocou num lugar protegido, com a esperança de que pudesse fazê-lo ressurgir. O tempo foi chegando. Longo e lento como só o tempo saber ser. E todas as vezes que voltava para aquele lugar, ia ao encontro do que restou de sua amiga.

Já conformada, começou a notar que o corpo morto de sua mangueira amiga havia se modificado. A coloração das raízes e do solo a sua volta estavam diferentes... seu coração bateu forte... a árvore de sua infância estava viva! Ao romper dos primeiros galhos, chorou... Seu tronco, agora mais forte e robusto do que antes, exalava um marrom tão vivo quanto o marrom dos olhos de sua avó ao gargalhar...

Hoje ela frutifica dentro dos meus olhos... Seja lá que rumo eu tome, meus passos são sempre dentro do corpo dessa árvore... bebo da seiva de seu ser para me aprender melhor e cresço. É de dentro dela que falo agora, Senhores. Sou a intuição encarnada dessa eterna mangueira. Entre nós o diálogo é tão intenso que já não precisamos mais nos dizer uma para outra. De nós, frutos, dores e silêncios são gestados dentro dos raios para compor com a vida o desafio de eterna e internamente crescer.



sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Poesieira de histórias

Queridos leitores, compartilho com vocês o nascimento de mais uma ação do Projeto Poesiar, criado por mim para semear o alimento feito com palavras vivas.

Poesieira de histórias é a maneira pela qual minha alma se manifesta desde criança... cheia de encantamento e plenitude nas realidades mundificadas pelos poemas e histórias sussurrados aos pés dos olhos...

É por gratidão à vida que devolvo ao mundo as histórias... nascentes de minha alma e meu corpo... agora tingidas no horizonte com a ventania de minha voz...

E para ser esse parimento retorno ao lar... na Ilha do Governador... sal que me plantou para mar...

Venham!!! Venham todos!  



quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Cirandando com Fernando Pessoa

É com grande alegria que convido todos vocês a participar do Projeto Poesiar, criado com o objetivo de promover Rodas de Poesia e Pensamento a fim de semear a palavra como possibilidade sagrada de transformação individual e coletiva.

A banalização da palavra vem conduzindo o homem ao distanciamento da sacralidade da vida. Por isso, é urgente percebermos que a palavra é mais do que código linguístico, é principalmente a corporeidade pela qual acolhemos o mundo e nos entregamos a ele. A palavra é o exercício do que somos. Sendo assim, é fundamental que mundifiquemos espaços para que possamos nos acolher dentro dela. Nesse sentido, temos que a poesia é a materalização da palavra em estado verbal, genuíno e, por isso, constitui-se a fonte e a foz de nosso mergulho.


A partir da leitura de obras de poetas e escritores consagrados, como: Fernando Pessoa, proporemos dinâmicas nas quais as pessoas serão convidadas a reconhecer as palavras que verdadeiramente habitam seus corações. Tal movimento trará o corpo e suas possibilidades para compor o processo de interpretação e integração de cada pessoa com sua realidade-palavra interna. O que pretendemos é semear o nascimento de novas palavras e poetas capazes de serem autores conscientes das palavras sagradas que gestam.

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